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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Post do Nando

Opinião

“IDH e comportamento ético”
 Não sei se o amigo leitor teve a curiosidade de assistir o programa televisivo “Globo Repórter” da última sexta-feira, que falava sobre o vizinho Uruguai. Tenho certeza de que quem viu a reportagem, fez um exercício de reflexão sobre como o Brasil poderia ser melhor se nossos políticos se preocupassem mais com o bem coletivo do que com o aumento dos seus respectivos patrimônios particulares.
  Ainda que a matéria exibida se mostrasse um tanto quanto superficial e merecesse mais tempo e aprofundamento, deu para perceber o quanto dinheiro bem aplicado e administrado pode ser convertido em serviços públicos de qualidade e bem estar para a população. Viu-se que no país vizinho o tema educação é tratado com a seriedade que merece, que os idosos daquele país podem se considerar privilegiados, pois os mesmos envelhecem em uma das quarenta melhores nações do mundo para se aposentar. Pois é: Os uruguaios, que formam uma população de pouco mais de 3,5 milhões de habitantes e dispõem de pequena extensão territorial para realizar suas atividades econômicas, encontram-se na 51ª posição no ranking mundial de IDH, (Índice de Desenvolvimento Humano). Enquanto isso, o Brasil, com uma população infinitamente superior, com atividades econômicas diversificadas, e ainda dispondo de terras e recursos hídricos abundantes, ocupa a pífia 85ª posição do mesmo ranking.
   Para os que não sabem, o IDH é um índice avaliado pela ONU que leva em conta aspectos relevantes para a qualidade de vida de um povo: escolaridade, longevidade, renda e acesso à saúde, por exemplo. E aí, amigo leitor, se nos compararmos a alguns outros países da pobre América do Sul, vemos que pagamos um preço caríssimo pela nossa cultura de individualismo, oportunismo e corrupção. Não estamos atrás somente dos uruguaios, mas também dos chilenos (40º) e argentinos (45º). Vergonhoso? Sim, mas o quadro ainda é um pouquinho pior: Venezuela (71º) e Peru (77º), também nos veem pelo retrovisor nesta “corrida internacional da qualidade de vida”.
  Sabendo-se que o Brasil oscila entre a sexta e a sétima posição no ranking da economia mundial, e confrontando tal informação com nosso péssimo desempenho no ranking do IDH, percebemos o quanto nossas riquezas são ainda mal distribuídas. A causa de toda esta discrepância? Eu tenho uma conclusão: Enquanto aqui no Brasil, o Renan Calheiros usa o avião da FAB para PASSEAR com sua trupe, o presidente uruguaio José Mujica utiliza um veículo “Corsa” para uso oficial. Mas quando os deslocamentos são de natureza particular, Mujica usa seu simpático fusquinha azul, em respeito ao seu povo. Nada mais didático e ilustrativo para entender nossa vergonhosa posição no ranking do IDH...

     * Fernando Freitas é funcionário público estadual e escreve às quartas-feiras.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Post do Fernando Olmo

 Crônica 
Anodinia

“As coisas que temos de aprender antes de fazer, nós as aprendemos fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando citara; da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente; e, corajosos agindo corajosamente.” - Aristóteles

Na minha apressada rotina, percebo com frequência pessoas ante algum tipo de trauma e dor. E, muita vez, um sofrimento alheio e externo a minha família acaba alcançando a mim também. Não raramente, são situações ligadas às drogas ilícitas ou adidas ao álcool – a droga mais comercializada e usada publicamente. Flagro o crack, de surdina, ganhando almas. Famílias reclamam o que fazer... E o que fazer quando um filho mergulha nessas amarguras e não se permite voltar? Assim, sem respostas, fé e sorte, mães e pais insensibilizam-se. Esquecem o choro, perdem as lágrimas e desesperam-se em apatia – anodinia!

Entretanto, leio filhos recém-chegados ao mundo e já distantes de uma referência sadia e/ou de pais carinhosos. Uma mestra um dia disse para eu guardar até o fim: Não dá para criar filhos aos pedaços e exigi-los mais adiante por completo. Quando penso nessa afirmação, imagino em analogia, um carretel a ser desenrolado – o filho a ser criado. Ninguém desenrola um carretel pela metade... Ou um pouco pela metade e outro pouco pelo fim ou de qualquer jeito. De qualquer jeito o resultado será, obviamente, um nó!

Para que pais e mães não culminem com esse nó engasgado em seus gogós, que possam então, dignamente, dedicarem-se a puxar sua linha pela ponta, devagarzinho, com carinho, continuamente... E que sem dó, choro e velas, possam formar gente que sente, empreende e vive feliz!

Fernando Olmo é professor da rede pública estadual e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio–SP (fernandoolmoprof@hotmail.com)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Post do Fernando Olmo

 Crônica 
O Estado mínimo quer seus cidadãos máximos

"Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la."MICHEL FOUCAULT

O descumprimento das Leis e demais protocolos sociais e a corrupção, prática essa bem usada no país durante o transcorrer da história, determinam o momento numa catástrofe nacional.

Especialistas e especuladores tentam desesperadamente achar uma explicação, uma forma de conter e manter encarcerados, quem sabe, para sempre, menores de idade que promovem desordens e barbáries. Porém, a violência é perpetrada de babando a caducando e o cenário é de insegurança. Precisamos de socorro... A TV e demais mídias tentam ludibriar subliminarmente apontando a um só público o cometimento de tragédias. Vendem a ideia que se punindo mais cedo, a clausura e dor dos agressores possa promover mais segurança social. Manipulam mentes estimulando a possibilidade de um cárcere eterno, o que muitas vezes, pelo desespero, permitimo-nos enganar. A realidade nos chacoalha quando vimos pela mesma TV que nos faz devanear com um alívio imediato, com uma solução milagrosa, com o fim dos problemas, que indivíduos apenados por um crime insano e cruel são rapidamente soltos: “Soltos irmãos cravinhos curtem a noite em SP”. Justiça?

O crack e demais porcarias todos os dias destroem gentes e famílias. Alastra-se sorrateiramente de porção em porção através de “mulas” de todas as idades sendo entregue uma por uma através de várias modalidades. Grandes e médios traficantes, para minimizar os riscos desse comércio podre e ilegal, recrutam recém-vividos viventes, matando-os muito brevemente, vivos... O terror é aqui mesmo!

O Brasil cria leis dentre outras normas tão lindas quanto poesia. E, não cumpre. A Constituição Cidadã, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, as Leis Penais e de Execuções Penais, são alguns dos vários exemplos. Quando o Estado não cumpre suas regras, ele comete crime contra o seu povo: “prevarica”. Não pode esse Estado mínimo resultar obviamente em cidadãos máximos, inteligentes, gentis, saudáveis e bonitos.

Um incidente infeliz me convida para dialogar antes de eu encaminhar esse texto ao jornal. Acabara de atender no Conselho Tutelar uma jovem de 25 anos com seus quatro filhos de 5, 3, 2 e 1 ano. O pai está preso por reincidência em tráfico de entorpecentes – contudo, a genitora narrou não saber exatamente se são mesmo filhos dele. Profissão: garota de programas. Filha adotiva de pais que morreram por tragédia quando era ainda uma criança – o pai por homicídio e a mãe de outra desgraça. Declarou-se ex-dependente química de crack, cocaína, maconha, cola... Mora onde? (- Não tenho lugar certo.). Vai para onde? (- Só Deus sabe o meu destino.). O que pretende para os seus filhos? (- Que não tenha a minha mesma sina...).

Precisamos saber compreender a existência dessas realidades e dar chance para que a fatalidade dos avós e pais não se repita na vida desses filhos e suas gerações. No mais, trabalhar e reestruturar famílias desse perfil que bate a nossa porta, diariamente.

A segurança pública que queremos e merecemos com dignidade, começa tratando de situações como essas.

Fernando Olmo é educador e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio–SP (fernandoolmoprof@hotmail.com)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Post do Fernando Olmo

 Crônica 
Carta para toda gente...

"Toda a doutrina social que visa destruir a família é má, e para mais, inaplicável. Quando se decompõe uma sociedade, o que se acha como resíduo final não é o indivíduo, mas sim a família", VICTOR HUGO

Nessa noite, um sonho me estremeceu de saudade… Devaneio que me conduziu na minha essência, lá de onde eu vim. Fixava-me exatamente no quarto de meus avós, Arthur e Maria. De pé olhava a cama, um móvel rústico e simples... Era mesmo aquele que na minha infância me acolheu entre aqueles que os terei como a mais doce e pura referência, por toda a vida, meus heróis! Acordei angustiado, com o gogó ardendo em fogo e um aperto enorme no coração. Porém, ao mesmo tempo, imensamente feliz pela visita inesperada…

Saudade da casa de tábua, mas da mesa farta. Saudade do meigo afago de “pai e mãe”, bem representado por eles. Saudade da sopa de fubá, do bolinho de chuva e das conversas à mesa. Saudade das broncas do avô e do pedido de clemência da avó: “- Tenha tolerância com o menino, Arthur…”.

Donos de uma linda família onde todos foram educados para o amor, para o trabalho e para a honra. Neles me oriento para os meus de hoje [minha família]. É desse tão grande amor que me inspiro para querer ser igual, trilhar e lutar! Tornaram-se a inspiração necessária para que, mais que tudo, possa eu fazer com que os meus gerados se orgulhem de seus pais [independentemente das virtudes e defeitos]. Para que tenham consciência de ter sido infinitamente protegidos, educados e amados.

A família, seja ela como for, deve ser o alicerce do caráter, o espelho que reflete por toda a vida… É a instituição mais preciosa, que deve ser absolutamente respeitada, protegida e mantida!

As razões dessas recordações não me surpreendem porque tudo foi fácil… Mas, sim porque houve tempero.

Fernando Olmo é educador e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio–SP

sexta-feira, 8 de março de 2013

Homenagem ao Dia Internacional da Mulher

Crônica
Santa Maria

“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal”. CARTA AOS CORÍNTIOS

Noite atrás, meu menino lá pelas tantas saiu de seu quarto e se embrenhou entre nós na cama. Justificou um choramingo e manha... Quando novamente adormeceu, retornei-o ao seu canto. Ufa! Estava nos apertando... No seu leito percebi um tufo de lã que havia se soltado do travesseiro. Caminhei para o meu sono e sonhei em meio a uma linda roça de algodão... Frutos graúdos abertos na infindável plantação. Espantado com a beleza emoldurada no horizonte, ganhava inspiração antes de iniciar a lida. Ontem sonhei... E foi assim que reencontrei minha santa Maria.

Encantei-me pela roça no sonho e pelo sonho da roça. Tudo trazido a mim pela quase imperceptível lãzinha desgarrada do travesseiro e das memórias agarradas em mim. Aquela quem me criou tem culpa nisso. Contrariou a máxima “foi criado com a avó” – dedicada aos netos mimados. Dizia com orgulho e encantamento sobre a vida na “Terra da Liberdade”, lugar que abrigou também Zumbi, herói do povo brasileiro, no Quilombo dos Palmares. De herança pobre, explicava com elegância as experiências vividas por ela e suas irmãs na labuta das estâncias. Histórias trágicas para aqueles que admiram o abismo. Para Dona Maria, se resumia num passado distante, porém, dizia que se pudesse, tudo de novo viveria.

Maria de fé, vivente da herança cravada pra sempre pela Virgem Santíssima de Nazaré, versava sempre pelo amor no seu bradar paciente: - Tenha tolerância, por favor!

Vivíamos ali d’outro lado. Casa de madeira e jipe na garagem. Ela, meu louvado avô e mais nove. No bornal, o Padeiro Branco fazia constar às buzinadas, às 6 da manhã, um pão d’água. Sêo Arthur madrugava! Preparava o café e, aos goles bem dados, todos os demais chamava. Na mesa, o sagrado pão era repartido em pequenas fatias para a primeira comunhão do dia. E tinha que dar! E quando não dava, ninguém também apercebia. Vó Maria, como sempre fazia, nunca transparecia... Em silêncio, antevendo a pouca oferta do divino alimento, trazia à mesa outro sustento. Bolinho de chuva, mandioca ou batata doce frita com café era a receita dessa mulher.

Na nossa humilde vila, de onde saiam pela manhã os caminhões dos boias-frias, certo dia combinei com amigos nas férias ir colher algodão. Maria, diferente de qualquer Maria, não assustava focando olhar na dureza e aduzia sua consideração: - Filho, abra bem a boca do saco e só pegue as fibras das caixetas bem abertas. Vá com carinho, devagarzinho e logo-logo, quando menos imaginar, findará o primeiro caminho. Volte noutro. E, nunca se aproxime de pau podre. Pode haver cobra por lá. Conselho do qual me valho. Só não me disse na vida quantas cobras por de trás dos paus podres nesse mundo haveria. Obviamente para não fazer me intimidar. Sabedoria de Maria!

Santa Maria, quanta saudade. Nunca vi mulher mais forte. Vivia pelo amor, não se afligia com a dor e repudiava a morte!
____________
* Dedico essa crônica em memória de minha sagrada avó Maria, mulher que me criou e se esmerou para que eu pudesse servir ao bem, cujo merecidamente, em sua homenagem demos o nome de nossa filha, nascida no último dia 28. Ofereço a minha esposa Patrícia e oportunamente agradeço por ter concebido nossas crianças. A minha mãe Marli, por ter me concebido... Dedico também para as médicas Dra. Izaura e Mônica e toda equipe da Santa Casa de Misericórdia de Presidente Epitácio – Dr. Sávio, Dr. Veigas, enfermeiras, técnicas e auxiliares – que participaram da chegada de nossa pequenina “Maria”... Por fim, ofereço este texto para todas as mulheres. Que possam se espelhar na bondade e no exemplo de “Nossa Senhora”...

Fernando Olmo é educador e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio–SP

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Post do Fernando Olmo


Fernando Olmo
A JUVENTUDE PEDE COLO...

"A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude" François La Rochefoucauld

Não acredito haver um sensato que não se pôs um minutinho, ao menos, na pele dos pais e dos demais familiares das vítimas do final de semana, cá e acolá… Tragédia de Santa Maria… Santa Maria mãe de Deus, porque havemos de parodiá-los?

O jovem pela sua própria condição, por sua coragem, às vezes irresponsável, precisa de colo. Carece de atenção, de quem o oriente e proteja-o ante o avantajar do mundo sobre si e o incontrolável desejo de conhecê-lo. E as vaidades, os hormônios e as paixões à flor da pele? Danem-se os riscos, dizem… Tudo é legal! O ilegal, ora tragicamente vem junto com um triste escorrer de lágrimas…

É preciso investir mais nos jovens, valorizar sua educação de maneira global, proporcionar-lhes ações culturais, esportivas e de entretenimento saudável, situações essas que possibilitem melhores rumos e que, em contrapartida, devolvam satisfatórios resultados sociais. É preciso acreditar neles…

Omitimo-nos quando desprezamos as ações de combate e prevenção às drogas – onde o tabaco e, especialmente, o álcool contribui catastroficamente com as fatalidades – e demais violências. Falhamos ante à prevenção das DST/AIDS [Doenças Sexualmente Transmissíveis], vez do aumento da infecção do HIV nessas faixas etárias. Erramos em não realizarmos campanhas educativas pela segurança no trânsito “com a cara da juventude” – com a cara daquele pós-adolescente grandalhão e da voz rouca que conquistou o seu primeiro automóvel… E, como a desproporcional tragédia do Rio Grande do Sul nos delatou, relegamos aos jovens lugares quaisquer…

Ranzinzas, reclamamos que o mundo já não é mais como o de antigamente e tal. Acabamos por formar cidadãos precoces ante a nossa desenvoltura essencialmente capitalista. Perdemos muito tempo em julgá-los, sem, contudo, participarmos adequadamente. Sem estender-lhes as mãos… Esquecemos que os jovens são indivíduos em fase de formação, que precisam de exaustiva orientação, da proximidade dos mais velhos, de carinho. Esquecemos que fomos jovens…

Para quem se adiantou, não há por aqui uma descabida pretensão em defender os cidadãos abrangidos por esse período da vida. Muito pelo contrário… Pretendo apenas exigir responsabilidade de “todos”! A juventude é uma saborosa e divertida fase. Se tenho o respeito que mereço, tive que ter atenção, de ser acolhido e encaminhado. Não há fórmulas mágicas! Para que possamos vivenciar menos tragédias é preciso, sobretudo, da educação dos pais e da maciça colaboração da sociedade…

Meus sentimentos!
___________________________________________
* Essa publicação estará disponível também em meu blog pessoal, “Blog do Olmo”: http://blogdoolmo.wordpress.com. Poste lá o seu comentário concordando ou não com esta opinião. Afinal, “a voz do povo é a voz de Deus”. Meu carinho!

* * Fernando Olmo é educador e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio – SP [E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Post do Fernando Olmo

Fernando Olmo
Carta para toda gente...

Toda a doutrina social que visa destruir a família é má,
e para mais inaplicável. Quando se decompõe uma sociedade,
o que se acha como resíduo final não é o indivíduo, mas sim a família.
Victor Hugo


Nessa noite, um sonho me estremeceu de saudade... Devaneio que me conduziu na minha essência, de onde eu vim. Fixava-me, exatamente no quarto de meus avós, Arthur e Maria. De pé olhava a cama, um móvel rústico e simples, era mesmo aquele que na minha infância me acolheu entre aqueles que os terei como a mais doce e pura referência, por toda a vida, meus heróis! Acordei angustiado, com o gogó ardendo em fogo e um aperto enorme no coração. Porém, ao mesmo tempo, imensamente feliz pela visita inesperada...


Saudade da casa de tábua, mas da mesa farta. Saudade do meigo afago de “pai e mãe”, bem representado por eles. Saudade da sopa de fubá, do bolinho de chuva e das conversas à mesa. Saudade das broncas do avô e do pedido de clemência da avó: “- Tenha tolerância com o menino, Arthur...”. Construíram uma família ampla, virtuosa e bonita, e ainda, educaram o neto [filho carinhosamente agregado] para o amor, para o trabalho e para a honra. 


É neles que me oriento para os meus de hoje [minha família]. É desse tão grande amor que me inspiro para querer ser igual, trilhar e lutar!
Foi esse o alimento necessário para que, mais que tudo, eu possa fazer com que o meu gerado se orgulhe da biografia do seu pai [independentemente das virtudes e dos defeitos], mas que tenha a consciência de ter sido infinitamente protegido, educado e amado. A família, seja ela como for, deve ser o alicerce do caráter, o espelho que reflete por toda a vida... É a instituição mais preciosa, que deve ser absolutamente respeitada, protegida e mantida!


As razões dessas recordações não me surpreendem porque tudo foi fácil... Mas, sim porque houve tempero! Porque mesmo diante das dificuldades, tive a sensação de ser muito querido. [E ainda, quando já na ausência dos meus queridos guardiões, ante a maior das tempestades, obedeci ao ensinamento maior e busquei força em Deus!].


Na família, o amor e a fé são os sentimentos necessários sobre todos os demais para se ofertar... É o que nos sugere a corajem e faz vencer! Enfim, Tudo isso é o que me move para poder servir as pessoas, para ser cada dia mais humano e carinhoso. Afinal de contas, fui acolhido... E o meu absoluto dever, é fazer o mesmo!


Fernando Olmo é educador.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sábado, 30 de junho de 2012

Post do Fernando Olmo

Fernando Olmo
VOTO VENDIDO, POVO VENCIDO


“Ninguém liberta ninguém,
ninguém se liberta sozinho:
os homens se libertam em comunhão.”
Paulo Freire

Dia desses, um conhecido me perguntou se um referido candidato estava dando combustível. Imediatamente, respondi que não era prática dele. Indignado comigo e com a negativa do meu preferido nesse sentido, o sujeito disse que iria atrás de um outro que pudesse assim o “ajudar”. Rapidamente, ceifei a conversa e me fui.


Também, tempos atrás, um camarada, cidadão reconhecido por suas qualidades na comunidade, disse-me que era impossível ganhar uma eleição sem que se comprassem votos. Que ele, inclusive, já havia participado de uma campanha e que, por não incorrer nesse ilícito, perdeu de longe. Por conta dessa experiência, tudo para ele estava evidente: “ou paga o(a) eleitor(a) ou perde a eleição”. Eu que só participei de campanhas eleitorais como “eleitor” fiquei estarrecido. Contudo, suas afirmações não me convenceram.


Gradativamente, percebo o desapreço e a desilusão do povo pela Política. Certamente, pessoas revoltadas pela impavidez, pelo descompromisso, pelo egoísmo de muitos que, após eleitos, acometem-se de uma poderosa paralisia.


Há uma campanha muito legal realizada pelo TRE da Paraíba que dita assim em seu jargão: “Voto vendido, povo vencido”. Sim, é verdade! É preciso que cada pessoa saiba que quando ela vende seu voto, primeiramente está cometendo um crime: a “Corrupção Eleitoral”. Além do mais, o político desonesto, que compra votos, não tem nenhum compromisso com a população, nem mesmo com o eleitor que vende a ele o seu voto, vez que esse já recebeu pelo seu ato. Esse é o tipo de político que só se preocupa consigo mesmo!


De acordo com artigo 299 do Código Eleitoral, “dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto, e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita”, será punido com “pena de reclusão de quatro anos” e pagamento de 5 a 15 dias-multa. Ademais, a perda do mandato, etc. Mesmo assim, há quem se dispõe a contrariar a Lei e correr os riscos, infelizmente.


Pois, pense bem, qual o preço de sua dignidade querido(a) eleitor(a)? Bem, dignidade não tem preço, não é? Então, procure saber sobre a história, a luta e os compromissos de seu candidato. Vote em quem tem compromisso com a sociedade! Não vote em quem compra voto!


Fernando Olmo é educador.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A escola do céu

Fernando Olmo
A ESCOLA DO CÉU


“Os Educadores-sonhadores jamais desistem de suas sementes, mesmo que não germinem no tempo certo... Mesmo que pareçam frágeis frente às intempéries... Mesmo que não sejam viçosas e que não exalem o perfume que se espera delas. O espírito de um mestre nunca se deixa abater pelas dificuldades. Ao contrário, esses educadores entendem experiências difíceis como desafios a serem vencidos.”
Gabriel Chalita


Numa escola fui me encantar num sarau de poemas... Mas, valeu tanto a pena... Gente, minha rimada prosa ficou pequeninha perto da poesia daquelas meninas. Serelepes, bradaram seus cantos como um galo carijó. E, não foi em lugar longe não... Foi bem ali, ó! Contaram coisas dessa cidade, com tal felicidade que ninguém jamais ouviu... Tem que se valorizar, viu... Afinal, essas são as preciosas pérolas desse lugar. Só precisamos, continuamente, com a qualidade melhor de um ser vivente, lapidar. Tudo para que desse nosso reduto saia, constantemente, o melhor fruto e com a qualidade de amar.


Do outro lado estava o tio da fanfarra, fazendo uma farra com os alunos batendo, soprando e marchando, fazendo música, cantarolando... Nesse momento, nessa escolinha não tinha ninguém bagunçando, fazendo arte ou traquinando. Ué? Estavam todos bem quietinhos, atenciosos, emocionados com seus trabalhos. É! Tudo resultado de afeto, carinho que tem que ser ministrado desde quando ainda feto.


Pais choravam de emoção enquanto os professores aplaudiam o resultado realizado com a paciência e o talento, capricho de suas mãos. E eu ali num canto, fixava meu olhar naqueles rostinhos, tentando buscar entender a magia contagiante de aquele recente amanhecer.


Sabia, no entanto, que a realidade da família de muitos alunos dali era dura e cruel. Porém, o papel especial dessa escola é oferecer bem ao contrário. “É fazer os pequeninos esquecer o tormento e a dureza, apontar a porta do outro lado e encaminhá-los para o céu!”


Fernando Olmo é educador.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Filosofia dos cinco anos

Fernando Olmo
FILOSOFIA DOS CINCO ANOS


Uma garotinha linda, de cabelos negros e com uma janelinha nos dentes da frente, precisamente na idade pré-escolar pula no colo do Papai Noel.
- O que você quer ganhar de presente? – o Noel pergunta.
O bom velhinho, estupefato, não estava preparado para a sequência:
- Primeiro, eu quero saber de onde vem o seu dinheiro? Quem paga a sua passagem do Pólo Norte até aqui? É alguma empreiteira? E aqueles duendes, eles estão levando quanto na jogada? Olha aqui, eu não quero me envolver em nenhum escândalo, mas esse negócio de ganhar presente só quando eu estou boazinha tá me cheirando a corrupção.
[O narrador]: Mudou tudo e não avisaram você?
Propaganda do Jornal “O Estadão”




Sentadinho no banco traseiro do carro ele olhava calmamente as casas passar. Era domingo. Dia menos corrido dos embalos da labuta e oportuno para polir a amizade entre pai e filho. Discretamente, espiava-o pelo retrovisor interno [peça automotiva que naquele momento perdera a sua função de fábrica e servia apenas para refletir o delicado e gracioso jeitinho do meu menino]. Com ele, cinco quarteirões se passaram, por sinal, muito rápido. O tempo nos transportou na velocidade de uma quinta marcha durante as primaveras de alegria sem fim…
- Pai, vamos embora? Tá ficando escuro.
- Sim, filho. Já estamos indo! – respondi com a mesma sensação de uma criança ao deixar uma brincadeira que gosta muito.
- Pai, quem fez a noite?
Misericórdia… Não tinha como explicar o movimento de rotação da Terra, etc, etc, etc… Procurei ser breve e objetivo, então.
- Foi Deus, filhinho. Ele faz tudo! O dia, a noite, o frio e o calor…
E ele continuou.
- Onde é que Ele fica, pai?
- Lá no céu, meu queridinho. Pra cuidar de nós e de todo mundo. - boquiaberto, tentava convencê-lo, após essas surpreendentes, complexas e filosóficas perguntas.
Achei que tivesse terminado. Eis que ele me mandou outra inimaginável.
- Pai, tem uma escadinha pra Ele subir lá no céu? Tem uma cama lá em cima pra Ele? – talvez na sua cabecinha, Deus estivesse de guarda de prontidão, lá nas alturas, cuidando-nos.
Não poderia frustrá-lo. E, não poderia me complicar também…
- Sim, Arthurzinho. Tem sim. Aliás, tem cama, casa, conforto. De tudo! Ele mora em um lugar muito bonito. O céu é um paraíso [sem me deter que, certamente, meu moleque poderia não entender nada sobre o paraíso].
- Deus fica lá com os santos e os anjinhos, pai?
- Isso mesmo, meu menininho. Todos os santos moram lá com Ele! – respondi, sem esperar pela próxima que doeu como um golpe.
- Papai, sabe de uma coisa. Agora eu torço pelo Santos.
Aí sim, hein… Ele começava na sua doce inocência me deixar aborrecido. Era só o que me faltava. O garoto foi concebido num confortável manto sagrado alviverde, recebendo durante todo esse tempo uma educação continua pelo verdão. Isso é arte da família da mãe dele [santistas doentes] – pensei.
Estacionei o carro em frente ao portão de casa. Abri a porta para o meu rei descer. Quando ele me olha e abaixa a cabeça balançando-a aos extremos. Finaliza a conversa com manha.
- Ah, pai… É que meus colegas lá da escola falam que o Palmeiras só perde. E o senhor não disse que Deus está com o Santos?
Morri!


FERNANDO OLMO é Educador!
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sábado, 2 de junho de 2012

Walking Men

Fernando Olmo
WALKING MEN


“O povo está sempre ou contra ou a favor.”
Cícero


Perambulava sorridente e a vontade numa linda manhã de sol pelos logradouros desta cidade. Alguns transeuntes perambulavam felizes também como a mim. De repente, vi uma multidão e tive a impressão de vê-los gritar repetidamente:


- Walking men... Walking men... Walking men... [walking men significa “homens a pé”, em inglês].


Antes de me deter da realidade, havia entendido ser uma manifestação entoada noutra língua para dar um caráter mais universal à intenção. Algo contra o sedentarismo, ou mesmo, para que os motoristas tivessem cautela, pois por ali havia muita gente a pé – divaguei...


Incrédulo de minhas próprias sensações, vim pelas costas daquele povaréu que se aglomerava num determinado ponto da cidade... Fui me enfiando devagarzinho, muito curioso para ver o que acontecia. Logo mais a frente fiz-me entender. Vi ainda que distante um senhorzinho careca, de estatura mediana, agasalhado num paletó beginho e ostentando seu belo nariz de tucano. Ora, mas quem diria? Era o governador do Estado, Geraldo Alckmin, que discursava para o povo. Dizia tudo muito metodicamente... E o povo gritava:


- Alckmin! Alckmin! E não walking men...


Uma ilusão sonora...
Com ele, ora candidatos estavam a prometer... Uns querendo se reeleger e outros querendo se meter. Assessores querendo apoiar e o povo querendo o que comer... E nesse alvoroço todo estava enfiado eu que antes apenas perambulava, mas que ora buscava compreender:


-Valha-me Deus, com tanta gente querendo dar e outras a fim de merecer, por que não se entender?


De tanta farta promessa está difícil escolher. Mas, quem meu Deus merece o povo ter?
No ano de eleição/Na política eu quero ver/Todo povo indo às urnas/
Votando para valer/Reelegendo quem presta/Cassando quem merecer.
No voto claro dizer/Nós exigimos mudança/Mais emprego e mais saúde
Mais pão e mais segurança/Sem candidato nos dando/Medo, invés de esperança.”


Fernando Olmo é Educador e Conselheiro Tutelar.
Pertence à AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio.
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sexta-feira, 25 de maio de 2012

É pra lamentá...

Fernando Olmo
É PRA LAMENTÁ...


A corrupção não é uma invenção brasileira,
mas a impunidade é uma coisa muito nossa. 
Jô Soares


Vêre a dô du povu… Vêre… Nu é dô carqué nãu, piãu. É dô duida nu íntimu d’alma. É subrivivê vênu us fiu ruênu us ossu di fomi, sin saúdi, sin iscola, sin vida adiquada… Michuca cumu ua pixêra nu curaçãu. É prá lamentá… É prá lamentá…


Di frenti cu a afliçãu i u disamô, a genti revorteia na roda da ispirança i ansêa u mundu mió, dus mai humanu calô. I, veiz qui dança. I, cansa. I nus finar das conta, ins muitu dia, nada siqué temu pra inchê a pança… Chora muié i muitu meninu. Frangu, gatu, patu, cachorru sofri di simiãça. U pai, jagunçu pirigrinu, lamenta cuntra u distinu, pruquê nu tróqui du sulavancu, aquerditô qui a voiz du homi di brancu fossi u toqui dus mai belu hinu.


Ei qui u azá du caminhu, troxi pra si incontrá, cu gatunu filinu, qui praquelas banda fingino, falava béim di mansinhu, pedinu u humirde carinhu, pra sê eli pralamentá.


Sujeitu tõ bõ qui paricia anju… Prumiteu terra, trabaiu i arguns otrus arranju pra módi a genti si ajeitá. Inda, feiz isperá muita casa, crechi, huspitar i iscola, pra nuss famía pudê cunfortá.
Vixi, sô… Nu dia das eleiçãu, deu dinhêru vivu na mãu, pra nói nu empóru passá, pra módi nus alegrá, dispois di neli votá. Dissi excrusivi aus cuitadu, qui otra groja pudia aguardá, si tudu nus finar das conta, u pranu di lá nas ponta, tornassi eli pralamentá.


Dispois dess farra, passô dia, passô mêis, passô anu. Grandi enganu… Cá tá nói tudu nu danu, pra lá i pra cá mendiganu cumida, trabaiu, saúdi i apoiu, iguar us mai sofridu humanu, pastanu comu animar.


Mermãu u dia falô, qui revurtadu cu a tristez i horrô, caminhô atrai du homi di brancu qui lá nu nossu recantu u dia nus percurô.


Nu escritóru das gentis distanti, nu artu dus prédiu giganti, ispirô mermãu sentadu aqueli agór importanti sinhô. Antis dus otrus intrá pra papiá cu nobri pralamentá, tiã qui cu eli i baixu tõ intuá:


- Licen, ixcelintísmu dotô.


Su ispirada veiz chigô i eli intrô i tõ logu disafruchô u nó qui i su cabez ficô. Tentô fazê eli limbrá, das prumessa di sustânça i fartua qui au povu humirde da vila feiz tudu sunhá. 


Gumadinhu i nas pompa, simulanu u grandi tadinhu, diss lá dotra ponta pra módi us cidadãu si acarmá. Intuô uas palarvas bunita i cumprumiteu fazê otra sina, pra tudu lá nu refujo si consulá. 


Dimais, pra ficá tronquili, qui logu as eleiçãu dinovu ia chigá i ansi u sufrimentu du povu taméim cissá. Qui ia lá novamenti, livá alimentu i dinhêru pra genti, poi eli quiria sê pra sempri u nobri notáver pralamentá…
É prá lamentá… É pra lamentá…
Vêre… Vêre a dô… Vêre a dô du povu, sô!


Fernando Olmo é Educador e Conselheiro Tutelar.
Pertence à AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio.
Blog: http://blogdoolmo.wordpress.com/
E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Desabafo

Fernando Olmo
DESABAFO


De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. RUI BARBOSA
Faltando praticamente seis meses para as eleições municipais, os grupos políticos já se encontram à polvorosa mobilizando suas estratégias. Em muitas ocasiões, pretensos candidatos e seus assessores, preocupadíssimos em oferecer aos fatigados eleitores o que há de pior por aí… Não dá para entender [ou, dá...].


Notáveis dotados de uma efervescente morbidez social agora se preocupam no que pode surgir no horizonte. Afinal, se incomodam um tanto porque o que pode melhorar a vida nas cidades não é exatamente o que alegra os seus anseios umbilicais…


Sempre acreditei que uma campanha eleitoral fosse uma disputa pelos mais interessantes projetos, pelo que, efetivamente, pode ser construído em favor das criancinhas, dos interesses dos idosos e pela dignidade das famílias… Nunca, uma guerra vil e imoral travada por ameaças, chantagens e covardes injúrias perpassadas por adultos anencéfalos que levianamente nada fazem [ou nada fizeram] pelo interesse público.


De direita, esquerda ou de centro avante, que o sofrido eleitorado possa então abortá-los no próximo pleito, oportunizando uma melhor sorte para as benditas urbes repletas de gentes humildes e carentes de Justiça Social!


Fernando Olmo é Educador e Conselheiro Tutelar.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio Blog do Olmo: http://blogdoolmo.wordpress.com E-mail: fernandoolmoprof@hotmail.com

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Homenagem ao Dia das Mães

Fernando Olmo
SANTA MARIA


“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal”.
Coríntios


Noite atrás, meu menino lá pelas tantas saiu de seu quarto e se embrenhou entre nós na cama. Justificou um choramingo e manha... Quando novamente adormeceu, retornei-o ao seu canto. Ufa! Estava nos apertando... No seu leito percebi um tufo de lã que havia se soltado do travesseiro. Caminhei para o meu sono e sonhei em meio a uma linda roça de algodão... Frutos graúdos abertos na infindável plantação. Espantado com a beleza emoldurada no horizonte, ganhava inspiração antes de iniciar a lida. Ontem sonhei... E foi assim que reencontrei minha santa Maria.


Encantei-me pela roça no sonho e pelo sonho da roça. Tudo trazido a mim pela quase imperceptível lãzinha desgarrada do travesseiro e das memórias agarradas em mim. Aquela quem me criou tem culpa nisso. Contrariou a máxima “foi criado com a avó” – dedicada aos netos mimados. Dizia com orgulho e encantamento sobre a vida na “Terra da Liberdade”, lugar que abrigou também Zumbi, herói do povo brasileiro, no Quilombo dos Palmares. De herança pobre, explicava com elegância as experiências vividas por ela e suas irmãs na labuta das estâncias. Histórias trágicas para aqueles que admiram o abismo. Para Dona Maria, se resumia num passado distante, porém, dizia que se pudesse, tudo de novo viveria.


Maria de fé, vivente da herança cravada pra sempre pela Virgem Santíssima de Nazaré, versava sempre pelo amor no seu bradar paciente: _ Tenha tolerância, por favor!
Vivíamos ali d’outro lado. Casa de madeira e jipe na garagem. Ela, meu louvado avô e mais nove. No bornal, o Padeiro Branco fazia constar às buzinadas, às seis da manhã, um pão d’água. Sêo Arthur madrugava! Preparava o café e, aos goles bem dados, todos os demais chamava. Na mesa, o sagrado pão era repartido em pequenas fatias para a primeira comunhão do dia. E tinha que dar! E quando não dava, ninguém também apercebia. Vó Maria, como sempre fazia, nunca transparecia... Em silêncio, antevendo a pouca oferta do divino alimento, trazia à mesa outro sustento. Bolinho de chuva, mandioca ou batata doce frita com café era a receita dessa mulher.


Na nossa humilde vila, de onde saiam pela manhã os caminhões dos boias-frias, certo dia combinei com amigos nas férias ir colher algodão. Maria, diferente de qualquer Maria, não assustava focando olhar na dureza e aduzia sua consideração: _ Filho, abra bem a boca do saco e só pegue as fibras das caixetas bem abertas. Vá com carinho, devagarzinho e logo-logo, quando menos imaginar, findará o primeiro caminho. Volte noutro. E, nunca se aproxime de pau podre. Pode haver cobra por lá. Conselho do qual me valho. Só não me disse na vida quantas cobras por de trás dos paus podres nesse mundo haveria. Obviamente para não fazer me intimidar. Sabedoria de Maria!


Santa Maria, quanta saudade. Nunca vi mulher mais forte. Vivia pelo amor, não se afligia com a dor e repudiava a morte!


• Ser mãe é se doar pelos filhos amando-os incondicionalmente da forma mais pura e verdadeira. É acordar cedo e dormir tarde em favor desse amor. Porém, independente das dificuldades, ter sempre a sua disposição um abraço acolhedor... FELIZ DIA DAS MÃES!


Fernando Olmo é Educador e Conselheiro Tutelar.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Vivo pelo fim da linha

Fernando Olmo
VIVO PELO FIM DA LINHA,
onde é outro começo

"Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Tenha dois ou três afazeres e não cem ou mil; em vez de um milhão, conte meia dúzia... No meio desse mar agitado da vida civilizada há tantas nuvens, tempestades, areias movediças e mil e um itens a considerar, que o ser humano tem que se orientar - se ele não afundar e definitivamente acabar não fazendo sua parte - por uma técnica simples de previsão, além de ser um grande calculista para ter sucesso. Simplifique, simplifique."
Henry David Thoreau


Antes de ser eu mesmo, viajei grudado no couro e na alma dos meus antepassados pelas distâncias da estrada de ferro. Na chegada estive numa pequenina propriedade do campo num lugar escolhido pelos espanhóis daqui... Havia uma casa de duas águas, de construção simples e de madeira desgastada: rústica, confortável e marcante. De prêmio pela vitória na peneira da existência, para dar-me o sustento, ganhei do meu sagrado avô uma vaca leiteira. Depois, presentearam-me banana para com o leite da mimosa misturar. Mais adiante, serviram-me caldim de feijão com farinha de mandioca para eu degustar. Abacate, goiaba, manga e mamão, sem trégua... 


Quando me percebi com uma costela de porco na mão. A fartura, a simplicidade das pessoas do campo, a vida junto à natureza, são dádivas inesquecíveis.


Nasci noutro começo, cresci pelo meio de alguns tropeços e vivo pelo fim da linha, onde é outro começo – o recomeço de mim através da presença do meu guri. Renovo-me nele e no que ainda me resta, aprendendo e ensinando os melhores valores que aprendi nessa terra.


Desfaço-me todos os dias para retomar o que o tempo levou... Fortaleço-me nas recordações da vida d’antes. Nos valores que realmente tem que ser reconhecidos e servir de referência para o meu filho: a fé, a família, o trabalho, a honra, o caráter e a tradição.


Quero ir na minha terra, Quero matar a saudade, Quero ver o que eu não vejo, Aqui dentro da cidade, Quero demorar bastante, Ficar lá o mês inteiro, Quero fazer toda a lida, Que eu fazia de primeiro, Quero domar potro xucro, Que há muito tempo eu não domo, Tomar um mate a meu gosto, Que há muito tempo eu não tomo...


“Comer as frutas silvestres, Da mata da minha estância, Plantada por mão do mestre, Que comi na minha infância, Eu quero fazer de tudo, Se der certo o que eu desejo, Eu quero encerrar as vacas, Tirar leite, fazer queijos, Fazer um laço de doze, Se esparramar no espaço, E serrar nas guampas de um bicho, Pra mostrar que braço é braço”.


Quero campeirar bastante, No lombo de bons cavalos, E carpir bastante de enxada, Para as mãos criarem calo, Arrastar pipa de água, Na cincha do meu petiço, Para lembrar minha infância, E o meu primeiro serviço, Quero arranjar um gaiteiro, E fazer um baile animado, E provar que sou herdeiro, Da herança do passado...


Lavrar terra sem trator, Pegar no rabo do arado, Pra bem da musculatura, Cortar lenha de machado, E levar um retratista, Pra bater fotografia, E provar pros meus amigos, De tudo que eu lá fazia, Vou fazer acreditar, Quem nunca me acreditou, E outros ficarão sabendo, Quem eu era e quem eu sou.


Fernando Olmo é Educador e Conselheiro Tutelar.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Nessa vida tem tirano...

Fernando Olmo
NESSA VIDA TEM TIRANO...


Fazer todo bem que se possa,
amar, sobretudo a liberdade e,
mesmo que seja por um trono,
jamais renegar a verdade.
Beethoven


Meu conterrâneo andava desacreditado... Atravessou uns dias sofrido, fraco e aflito. Tolhido da fé, até parecia que esperava apenas o fim dos tempos para se despedir dos tormentos e ajuntar os pés. Foi vítima do desalento... Disse ter sido honesto. Disse também que num outro instante acreditou haver justiça no mundo... E justificou assim a razão de se encontrar moribundo.


Cabra bom demais, direito e amigo. Mas que de tão bom provocou o inimigo. Não viu o perigo estampado no sorriso amarelo, na infinita promessa, nos tapaços nas costas, nos infindos apertos de mãos... E agora resmunga não acreditar em mais nada não... E insulta, fala mal e amaldiçoa ao trote adentro por esse rincão.


Hoje ainda, corpulento como é, mirou-me na cara e com uma profunda agonia, quase aos berros afirmou sua atual teoria: _ Pra quê viver, lutar, debater? _ Pra quê, querer tanto mudar o destino se o fim é morrer?


Diante do negativo, do desespero impresso naquela alma, de repente, sem ao menos um tiquito matutar, comecei a bater palma. Irritado, não quis contestar a sua sandice. Mais adiante, ainda no calor de seu discurso, lhe dei até razão... Era justamente aquilo que ele no fundo sabia que não tinha... Essa foi a minha provocação. E fi-lo chorar...


Cabisbaixo ele. Cabisbaixo eu. Ergui primeiro a fuça e atirei minhas palavras rumo em sua direção: _ Assim não te conheço, meu querido companheiro. Seja bem vindo ao mundo dos eleitos. Daqueles que escorregam, cambaleiam, mas não tombam... Dos que reequilibram dignamente, de vagarzinho, sem perder a direção. Senão acreditar, fazer o bem e amar, nada mais vale na vida não. Reclamar, falar mal e praguejar não adianta nada... Isso traz doença ruim, arruína o coração...


Paisano esse de compleição robusta... Grande das pernas, mas jovem na maturação. Bem por isso combati sua angustiada exposição.


Acanhado, ergueu-se sem pressa e estendeu a mão chutando o orgulho de lado: _ Desculpa. Realmente desconheço algum que vingou sem ter tido uma lição. Perdoa eu pela minha elocução. Era raiva! No vigor de sua prosa resgataste em mim aquilo que me fiz em formação. Precisava mesmo encontrar um amigo, matuto bom, pra me dar um chacoalhão.
Na verdade, não era plano tê-lo topado naquela grossa condição. Mas, foi a oportunidade de eu mostrar que na vida tem tirano, mas tem muito ser humano que faz boa ação.


*Ao agapeano amigo, professor Lourival Bortolin. Parabéns pelas dedicadas opiniões sobre as coisas de nossa cidade e generosa contribuição literária que se perpetuam por aqui por quase três décadas. Dessa forma, constrói do seu carinhoso modo, as páginas da história de nossa querida Joia Ribeirinha. Meu respeito e admiração!


Fernando Olmo é educador.
Pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dente por dente

Fernando Olmo
DENTE POR DENTE


Olho por olho, dente por dente. - Lei de Talião


Pedro Tadeu… Homem alto, forte, simpático e atraente. Verdadeiro semideus. Roupa justa pra mostrar o seu contorno adornado por um sorriso cepacol. No terreiro apanhou uma daquelas mangas graúdas, delícia cheirosa e sugestiva ao consumo. Farto fruto, benção de Deus, que lembrava a sua doce infância. Sacou o inseparável canivete da bainha costurada a mão e logo estava a saborear aos nacos uma bonita espada. Nhoc… Nhoc… Nhoc… Até que… Tof… Acidentalmente, mordeu o caroço e acabara de quebrar o lateral direito do riso.


- Aiê! Ui! E, agora? – consigo resmungou.


Da boca apanhou o mastigador na mão para ver o tamanho do estrago. No reflexo viu o Sêo Creysson das terças na TV. Desesperou-se. Marcava o pataco 19 em ponto de um sábado. Quem o socorreria? Quanto pagaria? Como sanaria essa situação? Tinha uma única certeza… De um jeito ou de outro esse estrago iria consertar. Dividiria ou deixaria sua velha motoca companheira, o que fosse…


Escondia-se no percurso do socorro. Sem disposição de encarar as pessoas, escamoteava o seu “cartão de visita” naquele instante. Dente bonito, contudo, já acometido de um canal que, consequentemente, descalcificou-o fazendo num momento inesperado pular pra fora. Sabia do risco, mas aquele então fraturado não doía… Vaidoso que era, acometia-se de um sentimento de profunda humilhação, como se com o dente tivesse perdido parte de sua dignidade. Enfim, sua autoestima escorria por aquela horrorosa lacuna entreaberta na frontal de sua modelada boca carnuda.


Encontrou-se com a namorada, Maria Joana, pedindo-lhe ajuda. Não conhecia nenhum dentista que pudesse atendê-lo prontamente. Ela riu e repugnou. Logo mais, conduziu seu choramingão enamorado no bem conhecido dentista, mais que amigo. Era o único que, sem muito pensar, tinha-o em mente naquela hora [ou em qualquer outra]. O odontólogo surpreso a recebeu com seu novo companheiro. O bonitão desesperado desconhecia que o tão gentil cavalheiro que o atendia já havia acarinhado o delicado perímetro de delirantes prazeres daquela agora sua dama.


Sorriso inteiro novamente, Pedro Tadeu estava em pé, digno, um homem por completo. Narciso reconstruído pronto a desfilar suas pernas bem modeladas, seus bíceps avantajados e sua autoestima pelos logradouros mais visitados da cidade. Brilhava para Maria Joana [e para todas as outras também...]. Superman! Até que mais adiante na cronologia, inesperadamente, fora abatido como um patinho…


Aquela visita ao insuspeito odontologista não foi a melhor. Ganhou um dente, perdera sarcasticamente o riso. A ocasião fez relembrar recônditos sentimentos entre Maria e o reconstrutor da dentária. Ela acabara de escapar de volta pra ele…


Homem agora de coração rachado, despedaçado, implodido… Foi-se a dona dos seus melhores carinhos. Ocasião de indesejada surpresa, seu mundo desmoronou… Pedro Tadeu, embora tão dado, deu-lhe amor e confiou. Ao saber da intimidade de Maria com o reconhecido, do reatado romance entre eles, sucumbiu ante a dor.


Dias depois, enfurecido, embriagado e decadente, buscou seu alicate na caixa de ferramentas, sentou-se e um por um extraiu sem gritos aqueles malditos dentes, então culpados pelo desamor. A fada do dente o desprezou. Afinal, não se tratava do dente de leite. Banguelo, só lhe restara a dor de cotovelo, sem o ranger de dentes…

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Engraxate

Fernando Olmo
O ENGRAXATE


Jesus às vezes se disfarça de mendigo
pra testar a bondade dos homens.
[fala da personagem Rosinha
no filme “O Auto da Compadecida”]


Quando eu era criança, ouvia dizer que Jesus se vestia de mendigo para falar com a gente…Hoje já de tardezinha resolvi, antes de ir embora pra casa, prosear um pouquinho com um amigo [Renan Bonilha, da Gráfica Pontal]. Nossa conversa se delineava sobre os tristes acontecimentos vivenciados pelos cidadãos epitacianos nesses tempos. Renan é um rapaz novo, educado, cidadão polido e consciente… No embalo da gostosa conversa, adentrou repentinamente ao seu comércio um senhor de aparência simples, com uma caixa de engraxar nas costas. Fazia tempo que eu não via um engraxate…


- Querem engraxar seus sapatos?
- Muito obrigado! – respondemos vez que nossos calçados não eram desses de lustrar…
- Posso atrapalhá-los por um segundo? – insistiu o senhor educadamente com um português invejável, diferente dos que labutam nessa sua humilde ocupação.
- Cadê as pessoas desta cidade? As que vejo passar me transparecem uma tristeza terrível nos seus semblantes…


Eu e Renan olhamos um para o outro atônitos pela fala do cidadão. E, ele continuou…
- Sou de Londrina no Paraná e não me lembro de ter visto um lugar assim… E, olha que eu ando por esse mundo. Vejo que é verdade o que falam nas cidades da redondeza. Dizem que depois que um frigorífico aqui fechou o povo tá passando por muita dificuldade.


Confirmamos a sua fala um tanto espantados, pois a coincidência foi tremenda. Era mais ou menos sobre isso que estávamos falando… E, concluiu:
- Ninguém vive de aparências, viu. As pessoas precisam é de sobrevivência! Vocês [o povo] têm condições de mudar isso…


E logo se despediu com a saudosa caixa nas costas, com uma elegância difícil de se ver nos mais engomados doutores. Nós, pasmos com a erudição do engraxate, ficamos a procurar explicações para aquele momento… Jesus ou não, o inesperado homem nos surpreendeu com muita sensatez e preocupação com as pessoas do nosso lugar… Encheu-nos de responsabilidades!
[Fato verídico]


Fernando Olmo é educador e pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio.

sábado, 10 de março de 2012

As aventuras do Homem-Flor

Fernando Olmo
AS AVENTURAS DO HOMEM-FLOR


Um herói é um indivíduo comum que encontra a força para perseverar e resistir apesar dos obstáculos devastadores.
Christopher Reeve


[A pequena e pacata cidade de Extrema Vila do Oeste estava sendo atacada pelos mutantes de opiniões, os supervilões da felicidade, satisfação e simpatia: Ar Manda Mundana, Guri, o Irado e o temível Homem Estorvo. A população estava em pânico...]


- Oh céus, quem poderá me salvar? Eu não me entendo com minha mulher, sogra e filhos. A alegria acabou em casa, queimaram a catedral de minha fé e eu não tenho dinheiro pra pagar ninguém. – aos berros e ao léu lamentava um aflito morador.
Extrema Vila do Oeste estava depressiva... O povo só se aguentava em pé com Diasepan, Olcadil e Rivotril.
Num sitiozinho ali por perto, um homem alto e corpulento, cabelos negros penteados do lado e de bigodinho cafajeste [que o deixava parecido com o lendário Freddie Mercury], apanhava rosas no jardim cantarolando uma antiga canção dos Desafortunados Senhores da Brasília dos Homens do Sorriso Amarelo, batendo no ritmo rock ‘n roll sua sandália de couro número 48. Sua identidade constava, Willian Marcel [mas, tratava-se secretamente de Flowerman]:
- Nas favelas, no Senado... Sujeira pra todo lado... Ninguém respeita a Constituição... Mas todos acreditam no futuro da nação... Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse?
O telefone celular toca, interrompe o gracejo e o herói atende.
- Hello! Hummm... Sei. Sei. Vou imediatamente, tá ok.
Após, Willian Marcel, corre tropeça e cai...
- Uiê... Ai... – dolorido, lamenta o atrapalhado salvador.
Levanta-se e ruma para trás do roseiral da propriedade. Gira... Gira... Gira... Roda... Roda... Vira e grita:
- Solta rosa e vem. Solta rosa e vem. – uns ruídos esquisitos acontecem...
[Pluft, Ploft, Plaft, Wommm...].
E, pronto para o embate, transforma-se... Com uma rosa vermelha tatuada no braço e outras empunhadas na mão, calção verde, corpo aberto no espaço, voa rapidamente para a Extrema Vila do Oeste.
Ao chegar à cidadezinha donde a desordem se instalava, uma atenta e fogosa quarentona o reconhece:
- Coração de eterno flerte... Adoro ver-te, menino do rio... Calor que provoca arrepio... Socorra-nos! Flowerman socorra-me primeiro da solidão, lindeza... – aos suspiros, a senhora na idade da loba, a perigo mais que os demais, o cobiça.
- Fla... Fle... Fli... Flor... Flowerman! Estou aqui! – voz que atingiu os habitantes como um gostoso sussurro. As mulheres foram à loucura. Os maridos gostaram também, mas enciumados, nessa altura já não sabiam se queriam socorro ou não.
- Contra os impostores do humor e da malcriação, eu sou a salvação. Não sou um pássaro, nem um avião... Sou o Homem-Flor em ação. Num mundo conturbado cheio de tristeza, crueldade e corrupção, eu com minhas rosas vermelhas na mão, aniquilo o mais sórdido vilão. Cadê vocês, profanos fanfarrões? – valentemente, o super-herói com uma rosa vermelha apontada pra frente na mão, desafiou-os.
Veloz como o som de um trovão chegava à sua frente o Homem Estorvo carregando no colo para ser mais rápido, Ar Manda Mundana e Guri, o Irado. Mundana adorou a viagem que a deixou, literalmente, nas nuvens... Porém, Guri estava virado no avesso de tanta ira. Não por viajar no colo do Estorvo, mas por ciúmes de Ar Manda Mundana.
- Estamos aqui Flowerman, seu marica. Agora juntos ninguém vai nos segurar... – provocou o líder dos vilões, com a excêntrica varinha na mão.
- Sou marica? Olha quem veio no colinho... Hummmm... – insultou o Homem-Flor ao Guri, o Irado.
Sem pestanejar, Flowerman fez em cima deles uma aleluia de pétalas de rosas. Como um flash, jorrou fragrância de flores do campo nos habitantes da cidade e abriu um caminho de orquídeas para os desencaminhados. Mandou beijinhos a todos e extravagantemente, cantou e dançou:
- Eu fico com a pureza da resposta das crianças. É a vida, é bonita. E é bonita... Viver! E não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz... Ah, meu Deus! Eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita. É bonita, é bonita. E é bonita...
Deste modo, desencantou o feitiço dos deprimentes soldados do mal os quais foram cercados e amarrados pela insurgente população. Homem Estorvo, Ar Manda Mundana e Guri, o Irado não esperavam por essa... Pegos de surpresa, não tiveram tempo para esboçar reação nenhuma. Flowerman lhes apontou um talo de rosa do qual saiu uma faisquinha verde, transformando-os em minhocas.
Após a batalha, o Homem-Flor despediu-se com acenos à população e levou consigo as minhocas para que no jardim de sua morada, junto às outras, contribuam com a melhoria do solo do seu jardim.
Dias depois, as rosas e demais flores no quintal do nosso herói estavam graúdas e formosas.
- Essa não. Além de não conseguirmos vencê-lo, ainda estamos colaborando com suas armas de fazer bondade... – esbravejaram as egressas minhocas do lindo jardim do Homem-Flor.
Agora, todos já sabem... Contra os impostores do humor e malcriação, Flowerman é a salvação. Não é um pássaro, nem um avião... É o Homem Flor em ação. Num mundo conturbado cheio de tristeza, crueldade e corrupção, com suas rosas vermelhas na mão, aniquila o mais sórdido vilão.


Fernando Olmo é educador e pertence a AGAPE – Academia Geral das Artes de Presidente Epitácio.
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