quinta-feira, 6 de junho de 2013

Post do Fernando Olmo

 Crônica 
O Estado mínimo quer seus cidadãos máximos

"Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la."MICHEL FOUCAULT

O descumprimento das Leis e demais protocolos sociais e a corrupção, prática essa bem usada no país durante o transcorrer da história, determinam o momento numa catástrofe nacional.

Especialistas e especuladores tentam desesperadamente achar uma explicação, uma forma de conter e manter encarcerados, quem sabe, para sempre, menores de idade que promovem desordens e barbáries. Porém, a violência é perpetrada de babando a caducando e o cenário é de insegurança. Precisamos de socorro... A TV e demais mídias tentam ludibriar subliminarmente apontando a um só público o cometimento de tragédias. Vendem a ideia que se punindo mais cedo, a clausura e dor dos agressores possa promover mais segurança social. Manipulam mentes estimulando a possibilidade de um cárcere eterno, o que muitas vezes, pelo desespero, permitimo-nos enganar. A realidade nos chacoalha quando vimos pela mesma TV que nos faz devanear com um alívio imediato, com uma solução milagrosa, com o fim dos problemas, que indivíduos apenados por um crime insano e cruel são rapidamente soltos: “Soltos irmãos cravinhos curtem a noite em SP”. Justiça?

O crack e demais porcarias todos os dias destroem gentes e famílias. Alastra-se sorrateiramente de porção em porção através de “mulas” de todas as idades sendo entregue uma por uma através de várias modalidades. Grandes e médios traficantes, para minimizar os riscos desse comércio podre e ilegal, recrutam recém-vividos viventes, matando-os muito brevemente, vivos... O terror é aqui mesmo!

O Brasil cria leis dentre outras normas tão lindas quanto poesia. E, não cumpre. A Constituição Cidadã, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, as Leis Penais e de Execuções Penais, são alguns dos vários exemplos. Quando o Estado não cumpre suas regras, ele comete crime contra o seu povo: “prevarica”. Não pode esse Estado mínimo resultar obviamente em cidadãos máximos, inteligentes, gentis, saudáveis e bonitos.

Um incidente infeliz me convida para dialogar antes de eu encaminhar esse texto ao jornal. Acabara de atender no Conselho Tutelar uma jovem de 25 anos com seus quatro filhos de 5, 3, 2 e 1 ano. O pai está preso por reincidência em tráfico de entorpecentes – contudo, a genitora narrou não saber exatamente se são mesmo filhos dele. Profissão: garota de programas. Filha adotiva de pais que morreram por tragédia quando era ainda uma criança – o pai por homicídio e a mãe de outra desgraça. Declarou-se ex-dependente química de crack, cocaína, maconha, cola... Mora onde? (- Não tenho lugar certo.). Vai para onde? (- Só Deus sabe o meu destino.). O que pretende para os seus filhos? (- Que não tenha a minha mesma sina...).

Precisamos saber compreender a existência dessas realidades e dar chance para que a fatalidade dos avós e pais não se repita na vida desses filhos e suas gerações. No mais, trabalhar e reestruturar famílias desse perfil que bate a nossa porta, diariamente.

A segurança pública que queremos e merecemos com dignidade, começa tratando de situações como essas.

Fernando Olmo é educador e conselheiro tutelar em Presidente Epitácio–SP (fernandoolmoprof@hotmail.com)

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